E a nossa historia continua! =]

Não sabe o que é SERVO?! Olha aqui o começo da historia!



1. O ANJO


Um rapaz magro, de cabelos acinzentados, olhos azuis e uma cicatriz no rosto saiu desesperado, correndo em meio às chamas, tossindo, com suas roupas negras sujas e rasgadas. Ele olhou para trás, vendo aquele casarão antigo, que lhe serviu de moradia por tantos anos agora coberto por chamas, quase irreconhecível. Teria que procurar um novo lar e recomeçar sua vida.
Um homem de cabelos cumpridos vestido de branco apareceu caminhando pelas chamas, com duas espadas, uma em cada mão e uma mascara com um desenho de escorpião estilizado no rosto. Quando parou de caminhar, já estava fora do casarão. Ele olhou para o rapaz, apontando uma de suas espadas em direção a ele e disse:
-Eu sou o líder agora. Se você der um passo à frente, farei de você meu braço direito e você terá o que quiser. Se der um passo atrás, pode ter certeza de que sua vida se tornará um pesadelo. A escolha é sua.
O rapaz fitou-o nos olhos, com uma expressão de indignação em seu rosto. Ele nem pensava em atacar o homem mascarado a sua frente, pois, mesmo estando armado com uma grande espada de lamina negra, ele sabia de algum modo que certamente perderia o combate. Então aquele era o momento da sua escolha final, que decidiria se ele continuaria com sua vida como era antes, ou se tomaria um novo rumo.
Sem dizer uma palavra, olhou para baixo, deu meia volta e saiu correndo em direção a rua. O homem mascarado baixou a espada e, rapidamente num salto desapareceu no ar, deixando ao fundo o casarão em chamas.
Algum tempo depois, cansado de tanto correr e de toda situação que passou, o rapaz de cabelos acinzentados parou em frente a um beco escuro numa rua que fazia parte da periferia da Capital. Lá estava um velho mendigo se preparando para dormir, que se encolheu e olhou assustado para o rapaz que empunhava uma espada imensa.
-Fique tranqüilo, eu não irei machuca-lo –disse o rapaz, jogando a espada no chão, tentando acalma-lo.
Como já era madrugada, fazia frio e ele não tinha onde ir, pediu emprestadas algumas cobertas pra que ele pudesse passar ali a noite. Gentilmente, vendo a situação das roupas dele e de sua aparência, o mendigo lhe emprestou um cobertor velho. O rapaz agradeceu, sentando no chão e cobrindo-se para não passar frio. O mendigo também lhe ofereceu um pedaço de pão, mas ele recusou apenas acenando com a cabeça, pois ele não era de falar muito. Mais tarde ele adormeceu, tentando esquecer o que tinha presenciado das cenas traumatizantes que presenciou.
No dia seguinte ele acordou, olhou para o lado e viu que o mendigo não estava mais ali. Apenas suas cobertas, um saco de pão velho e uma caneca se encontravam no lugar. Ele pensou que provavelmente o pobre homem saiu em busca de comida ou de alguns trocados. E era exatamente isso o que ele teria que fazer se quisesse sobreviver dali em diante.
Após se levantar, ouviu um grito de mulher. Rapidamente pegou sua espada , saiu do beco e foi descendo a rua à procura de alguém que estivesse em perigo.
Ele parou ao tropeçar em algo. Olhando no atrás, no chão viu que havia um rastro de sangue e, seguindo esse rastro, pôde ver o mendigo que lhe ofereceu abrigo na noite passada, que estava morto, com um rombo enorme no abdômen e com a boca cheia de sangue.
Foi então que ouviu um grunhido vindo de um monstro colossal que vinha logo a sua frente com cerca de três metros de altura, com o couro vermelho, com garras e olhos negros aproximando-se de uma garota que acabara de cair no chão. Ele ficou chocado pois nunca viu um bicho enorme como aquele, mas precisava salvar a garota de qualquer maneira, mesmo se tivesse que matar o monstro.
Num salto ele golpeou o braço do monstro, que o amputou. Em seguida, com o outro braço, o monstro lhe deu um golpe que o fez voar longe. Quando o monstro estava próximo de abocanhar a garota, o rapaz retornou, subiu em suas costas e cravou sua espada no pescoço do bicho, que caiu logo depois, sangrando muito e vindo a morrer logo em seguida.
-Eu nunca vi uma criatura dessas em toda a minha vida –disse o rapaz à garota.
-Nem eu. Mas eu fui avisada de que isso poderia acontecer um dia –disse ela, tentando se recompor do susto.
-Você está bem? O monstro lhe machucou?
O rapaz estendeu a mão até ela e a ajudou a se levantar. Era uma linda garota que aparentava ter a mesma idade dele, com o corpo esbelto, roupas que lembravam ter motivos religiosos. Seus cabelos eram negros e curtos, deixando uma franja cair em seu rosto. Mas o que mais lhe chamava a atenção eram seus olhos: o direito era de azul e o esquerdo de cor verde. Sua presença de algum jeito acalmava as angustias dele.
-Estou bem sim, apenas sofri alguns arranhões ao cair no chão, mas nada de grave. Muito obrigada por me salvar, eu lhe devo minha vida.
Ele não respondeu, olhando somente para o monstro parecendo ignorar os agradecimentos dela. O monstro, curiosamente, tinha uma marca em seu corpo idêntica a da mascara do rapaz misterioso que aparecera a sua frente na noite anterior.Ela, um tanto sem graça, tentou puxar conversa:
-Posso saber qual o seu nome?
-Orion...
-Orion? É um belo nome. Eu me chamo Polaris. Você mora aqui mesmo na Capital?
-Sim. Mas minha casa foi destruída e agora preciso procurar um novo lugar para viver.
-Eu sinto muito pela sua casa –disse Polaris com pena do pobre rapaz.
Ele sacudiu a espada limpando o sangue deixado pelo monstro e começou a andar na direção contraria a de Polaris.
-Espere! Onde você vai?
-Você não me ouviu? Preciso ir embora e procurar um lugar para morar. Volte para sua casa.
-Mas eu sei um lugar onde você pode morar! É só você me acompanhar!
-Eu não sei se devo...
-Ora, venha! Vamos logo! É o mínimo que posso fazer como agradecimento pelo que você me fez. Aceite meu convite!
-Meu filho, vá com ela... esse mundo está perigoso hoje em dia...
Orion olhou para trás e viu um velho com óculos escuros redondos e pequenos, com um cachecol, em uma cadeira de rodas elétrica com uma bandeira presa nas costas. Ele era meio rechonchudo.
- Mas...hum... quem é você? - perguntou Orion.
- Eu sou eu oras bolas... e eu gostei de você... você parece ser legal... agora você será meu amigo! Meu e do meu pé de coelho - ele tira um chaveiro de cogumelo do bolso - ele me traz sorte sabe?
- Mas isso não é um cogumelo?
- Shhhhhh....ele pode ouvir! Você vai ferir os sentimentos dele...
Orion olhou para Polaris tentando entender o que estava acontecendo, mas ela estava com uma cara de interrogação maior do que a dele.
- Então, vá com ela! Simplesmente, vá... será melhor pra você!
Dizendo isso o velho colocou o acelerador da sua cadeira de rodas pra frente... e foi-se embora...
-Tudo bem, não tenho para onde ir mesmo.
E os dois desceram a rua, chegando a um terminal, onde pegaram um ônibus que iria para a zona central da Capital. Polaris pagou a passagem de Orion, que estava sem dinheiro e os dois voltaram a conversar.
-Para onde estamos indo?
-Para o centro da Capital. É lá que eu moro! Você deve estar se perguntando o que eu fazia aqui na periferia não é mesmo?
-Na verdade não.
Polaris ficou sem graça, mas mesmo assim prosseguiu:
-Eu sou vigiada o tempo todo e isso às vezes me cansa. Querem me proteger e acabam exagerando, entende? Eu raramente saio de casa e por causa disso que eu fugi de lá, mas eu já estava voltando para casa antes de encontrar você...
Orion olhava pela janela e parecia não estar prestando atenção ao que ela dizia. Ele era muito serio, não sorria e estava sempre com um olhar frio e distante.
-Você não é muito de conversar não é mesmo? Perdoe-me, às vezes eu falo demais.
-Tudo bem, eu não me importo.
Polaris sorriu mas calou-se, constrangida.
-Posso lhe fazer uma pergunta?
-Claro!
-Você disse quando lhe salvei que lhe avisaram que aquilo poderia acontecer algum dia. O que você sabe a respeito daquele monstro?
-Aquele monstro, ou melhor, aquele demônio... É obra da Servo.
Orion surpreendeu-se com o que a garota disse, mas tentou não demonstrar nenhuma reação e continuou a ouvir.
-A Servo é uma seita secreta demoníaca, onde todos que participam dela fazem rituais, onde trocam desejos materiais por energia vital humana para alimentar os demônios. Eu fui avisada de que quando conseguissem um numero considerável de pessoas na seita, demônios começariam a surgir pela cidade. Você já ouviu falar deles, Orion?
-Não! – bradou Orion, que fez com que os outros passageiros do ônibus olhassem para ele.
-Tudo bem, acalme-se! Eu falei algo de errado?
-Perdoe-me, eu me exaltei.
Orion observava os olhos de Polaris que eram de cores diferentes e brilhavam de uma forma intensa. Ele não se conteve e disse:
-Seus olhos... são diferentes. Eles brilham tanto... por que eles são assim?
Polaris ficou envergonhada, sorrindo para o rapaz que parecia admirado com o seu olhar.
-Meus olhos? Dizem que esse é um sinal de que eu sou especial. E é por isso que me protegem tanto.
-Entendi. –disse ele, olhando para a janela do ônibus novamente, perdido em seus pensamentos.
-Você tem família?
-A única pessoa que eu considerava minha família está morta agora. Não tenho mais ninguém.
-Que triste, Orion. Deve ser por isso que você é tão calado.
-É...
“Ela só pode ser da Asha!” –pensou Orion, ao ouvir as palavras de Polaris.
-Já chegamos no ponto! Venha, vou levá-lo para conhecer minha casa!
-Sim, vamos.
Orion estava receoso agora, pois desconfiava que Polaris não era uma pessoa comum. De alguma forma, ele sentia-se bem ao lado dela, mas sabia que ao mesmo tempo, sua vida iria tomar um rumo diferente acompanhando-a
Eles desceram do ônibus e seguiram rua a baixo, onde havia um imenso templo que era do tamanho do quarteirão todo.
-O templo principal da Asha...
-Sim, essa é minha casa! Você já foi lá?
-Essa é a primeira vez.
-Então vamos logo, quero te apresentar a uma pessoa!
Polaris puxou a mão de Orion, que, um pouco desajeitado, acompanhou-a até o lugar.
Chegando no local, eles avistaram o salão principal, onde havia cinco estatuas imensas num altar, que pareciam ter a fisionomia de animais antropomórficos e um sacerdote de costas, fazendo suas orações no altar. Orion, por algum motivo, preferiu não entrar.
-Deixe-me aqui. Fale com ele primeiro.
-Tudo bem, mas quando eu o chamar, entre para ele te conhecer! Não precisa ter vergonha.
Polaris lembrou que, como havia saído de lá sem avisar ninguém. E por isso já esperava levar uma bronca. Mas mesmo assim, disfarçando, tentou ser simpática com o sacerdote:
-Olá, Rigel! Acabei de chegar!
O sacerdote que era roliço, baixinho, de barba e cabelos brancos olhou para trás nervoso:
-Polaris! Onde você esteve? Eu fiquei louco te procurando! Os outros monges até saíram a sua procura. Eu estava até agora rezando para que os cinco guardiões a trouxessem de volta sã e salva! Você me deixou muito preocupado, sabia?
-Desculpe-me, Rigel! Mas, eu nunca posso sair daqui. Eu estou cansada de ficar enclausurada nesse templo sem ver o mundo!
-Mas você é uma menina especial! Não pode sair por ai sozinha do jeito que você fez. -Ta bom! Ta bom! Você já me falou isso muitas vezes. Deixa isso pra lá, eu já estou aqui mesmo!
-Polaris! –disse Rigel, repreendendo-a.
-Isso não importa mais. Eu quero lhe apresentar uma pessoa. Ele me salvou de ser atacada por um demônio na periferia da Capital.
-O quê? Você foi até a periferia da Capital? E foi quase atacada por um demônio? Eu temia que isso acontecesse! Temos que redobrar a segurança em cima de você agora. Eu lhe avisei sobre as escrituras! Você não...
-Chega Rigel! –interrompeu ela –posso ou não apresenta-lo para você?
-Tudo bem, mande-o entrar –disse Rigel colocando a mão em seu rosto.
-Venha Orion! Entre!
Ao ver aquele rapaz que tinha um olhar frio, todo sujo, com uma cicatriz e uma espada imensa em suas costas. Rigel assustou-se, fazendo-o tropeçar e cair no chão.
Subitamente, as estatuas começaram a reagir a presença de Orion. Um barulho ensurdecedor tomou conta do local, fazendo ate os vitrais do templo trincar e estourarem. Os olhos das estatuas brilhavam num azul intenso e, em questão de segundos, projetaram um raio que fez o rapaz sacar a espada e se defender contra esse ataque. O raio se intensificava cada vez mais até que ele não agüentou e caiu no chão.
-Rigel! O que está acontecendo? Orion me salvou! Ele não é mal! Por que estão fazendo isso com ele? Pare já essas estatuas.
-Eu não sei o que está acontecendo, Polaris! Mas só você pode ordená-las para elas pararem!
Polaris desesperada com a situação gritou:
-Sendo assim... eu ordeno que parem imediatamente, cinco guardiões!
Os raios cessaram no mesmo instante em que Polaris falou. Logo ela foi socorrer seu amigo:
-Você se machucou? Vamos! Eu o ajudo a levantar!
-Está tudo bem, eu posso me levantar sozinho.
Rigel aproximou-se com muito medo de Orion, que ainda estava no chão., recuperando-se do ataque. Analisando-o cautelosamente o rapaz, ele perguntou:
-Você é humano ou o quê?
-Rigel! Isso é jeito de se cumprimentar alguém? Eu não o trouxe aqui para ouvir isso!
Orion levantou-se e com o mesmo olhar frio de outrora respondeu:
-Eu não sei o que sou para falar a verdade. Sempre fui diferente dos demais.
-As estatuas não atacariam qualquer pessoa. Com certeza você tem alguma ligação com demônios.
Orion olhou para a garota e disse:
-Eu era da Servo.
Polaris surpreendeu-se. Aquele que a salvou e a quem contara suas historias na verdade estava do lado que ela acreditava ser o inimigo.
-Da Servo? E como tem coragem de pisar nesse templo sagrado?
-Eu não vim aqui porque quis. Fugi de lá, durante um incêndio, provocado por membros da Asha!
-É verdade isso, Rigel? –perguntou Polaris, sem entender nada.
-Sim, menina. Nós da Asha sempre estivemos atrás desses adoradores do demônio e, graças a um espião, descobrimos a sede secreta da Servo! Era um casarão velho que ficava na periferia da Capital. Botamos fogo em tudo, para purificar aquele local de todo o mal que vinha lá de dentro.
-Por que eu sou sempre a ultima a saber dessas coisas?
-Perdoe-me Polaris. Sabe que fazemos isso para o seu próprio bem. Tratamos de destruir o mal antes que ele chegasse até você. Mas, vejo que de nada adiantou! –disse o sacerdote encarando Orion.
-Não se preocupe, eu não vim aqui lhes atacar e nem vou me vingar de vocês por causa disso. Eu não pertenço mais a Servo, pois ela acabou depois daquele incêndio.
-Como você pode afirmar isso? Onde foram parar os outros membros como você? Eles fugiram?
-Creio que estão todos mortos, assim como meu mestre.
-Então ele quem você considerava da sua família, Orion? –lembrou-se Polaris.
-Sim. Ele me acolheu quando eu perdi a memória. E desde então me criou como se fosse seu filho.
-Entendo. Era Sirius, o líder da Servo, não era?
-Sim, ele mesmo. Mas ele não foi morto no incêndio. Eu ovisendo assassinado... -Quem matou seu pai, Orion? Era da Asha?
-Nós nunca sujaríamos as mãos com o sangue desses adoradores de demônio, Polaris –disse Rigel.
-Não. Eu não sei quem era. Ele usava uma roupa branca e também uma mascara com um desenho vermelho. Não vou cansar até encontrá-lo novamente...
-Orion, não pense nisso agora. Você precisa tomar um banho e relaxar. Rigel, eu peço a você que cuide dele, dê comida e tudo o que ele precisar. Esse rapaz salvou minha vida e mesmo que você não goste dele é o mínimo que posso fazer para agradecê-lo.
Rigel olhou para o rapaz, ainda com duvidas por causa da reação das estatuas e sobre a revelação de seu passado.
-Tudo bem, Polaris. É meu dever, mesmo que isso seja contra minha vontade, atender a um pedido seu. Queira me acompanhar, Sr. Orion.
-Mais tarde nos falaremos, Orion. Esteja à vontade agora, a casa é sua.
-Eu sei que não sou bem-vindo aqui. Ficarei aqui por essa noite apenas.
E o sacerdote o acompanhou até os aposentos. Polaris ficou ali mesmo, chocada, olhando para as estatuas pensando em tudo o que havia acontecido. Tinha muitas duvidas sobre o demônio que viu, sobre as estatuas e sobre o porquê de a protegerem tanto. Também acreditava que Orion, mesmo sendo da Servo não era uma pessoa ruim. Ela precisava de respostas e sabia muito bem quem seria capaz de tirar suas duvidas.

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