Hoje é sexta. Dia de Tchubarubar =]

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3. O CAÇADOR



Havia uma praça atrás do templo, onde anualmente era realizada uma festa religiosa, organizada pelos sacerdotes, eram vendidas comidas, bebidas, artigos religiosos, tudo para arrecadar dinheiro e fazer doações. Havia musica, dança, pessoas fantasiadas de personagens da religião. Era uma comemoração que movia não só a Capital inteira como também as cidades vizinhas.
Orion acordou um pouco tarde. Arrumou-se, pegou sua espada e olhou atentamente ao livro que lera na noite passada. Como aquele objeto lhe despertou certa curiosidade, pensou em roubá-lo para estudar mais tarde, pois sairia sem se despedir de ninguém. Mas achou melhor não fazê-lo, pois ele já era mal visto por ser ex-membro da Servo e seria mais ainda se roubasse o livro deles. Fechou a porta com cuidado, mas ao virar-se levou um susto ao encontrar Polaris parada bem a sua frente.
-Bom dia, Orion! Ou melhor, boa tarde não é? Pensei que você nunca iria acordar! É quase meio-dia!
-Eu não dormi direito a noite passada. Estava com muito sono.
-Entendo. Mas, venha comigo! Queria que você conhecesse a festa anual...
-Eu preciso ir, já perdi muito tempo aqui –interrompeu-a.
-Não, Orion! Fique para a festa! Você precisa de um pouco de diversão, vai ser legal!
-Tenho que seguir meu caminho, Polaris...
-Por favor! Queria tanto que você ficasse aqui, e me acompanhasse depois na minha jornada.
-Que jornada?
-O Reverendo Hatsya me incumbiu de visitar as cinco cidades que estão aos arredores da Capital. Ele disse que lá eu irei encontrar as respostas que eu procuro, mas é muito perigoso andar sozinha por ai, e por isso eu devo ter um guarda-costas. Chamaram um caçador de demônios para me ajudar, mas eu queria que você fosse comigo também.
-Um caçador de demônios? Bom, se você tem a ele não precisará de mim.
-Ah, Orion! Eu confio em você...
Alguns segundos em silêncio se passaram até que Orion disse:
-Ficarei pelo menos para a festa então. Desejo saber um pouco mais sobre a religião Asha.
-Que bom! Fico feliz pela sua decisão Orion.
-Mas eu posso lhe pedir uma coisa antes de irmos?
-Claro, Orion! O que você quer?
-Eu queria levar aquele livro comigo –disse ele apontando para o livro azul.
-O livro das escrituras antigas da Asha? Pode levar! Temos centenas de copias deles. Fico feliz que você se interesse pela nossa religião.
-Não que eu me interessasse, mas eu fiquei um pouco curioso.
Orion pegou o livro e levou consigo ate a porta do seu quarto.
-Tudo bem, de qualquer forma ler esse livro irá te fazer bem. Agora não vamos mais perder tempo!Venha comigo pois logo a festa irá começar!
Polaris o puxou pelo braço e saiu correndo em direção a uma das entradas do templo, onde se avistava a praça toda enfeitada e pessoas chegando de todos os lados.
Rigel estava próximo à entrada, conversando com outro sacerdote, quando viu Polaris e Orion chegar.
-Boa tarde para vocês! Espero que se divirtam bastante nessa festa e principalmente prestem atenção quando o Reverendo Hatsya fizer seu pronunciamento sobre a festa dos cinco guardiões.
-Sim, Rigel pode deixar –disse Polaris, sorrindo.
-Quem são esses cinco guardiões de quem tanto falam? –perguntou Orion a Polaris –Ouço falar tanto deles. Eu li até no livro azul.
-Eles são nossos “deuses”. Fique atento ao pronunciamento do reverendo que ele contará exatamente o papel deles na nossa religião.
Orion e Polaris andavam no meio da multidão que se aglomerava para participarem da festa, mas todos se distanciavam ao ver Orion passar pelo seu caminho. As pessoas o encaravam pelo fato dele carregar uma espada enorme em suas costas e pela sua aparência amedrontadora.
Eles atravessaram a praça até chegar em frente a um palco montado onde estava o reverendo, que começaria o seu discurso. Polaris aproximou-se da beira do palco com Orion, para ouvir atentamente as palavras de Hatsya.
Rigel pegou o microfone para testar e logo disse:
-Senhoras e senhores. Peço sua atenção agora pois nosso sumo sacerdote, o Reverendo Hatsya do templo central da Capital irá fazer seu pronunciamento.
O sacerdote colocou o microfone num pedestal e logo se juntou a outros cinco sacerdotes que cercavam Hatsya, conduzindo ele até o palco. O reverendo, um homem bondoso, acenava para todas as pessoas que o recebiam com palmas.
-Boa tarde meus queridos! É com imensa satisfação que eu os recebo para brindarmos na nossa festa anual. O principal intuito da festa, além de arrecadar o dinheiro para as instituições de caridade é lembrarmos e reforçarmos as histórias dos nossos queridos deuses, os lendários cinco guardiões do céu e da terra. Para quem não tem conhecimento, eu lhes informarei sobre a nossa religião. A Asha é baseada nas antigas escrituras, um livro de capa azul como esse –disse Hatsya erguendo o livro- escrito há três mil e duzentos anos atrás por um profeta chamado Zarat, o fundador desse templo da Capital. Ele foi escolhido pelos guardiões para espalhar para o povo seus ensinamentos e também dizer coisas sobre nosso futuro, tudo em forma de código para ser interpretado livremente por nós.
-Você ouviu Orion? –perguntou Polaris –esse livro é milenar. E todos esses ensinamentos foram narrados pelos próprios guardiões.
-Interessante –disse ele, sem olhar para a garota.
O reverendo abriu o livro e leu as primeiras paginas. Logo voltou a dizer:
-Os cinco guardiões do céu e da terra vieram do universo e criaram nosso mundo e cada forma de vida que habita ele para prosperar e seguir seu aprendizado conforme as escrituras. Mas há uma força destrutiva vinda do inferno que de tempos em tempos tenta enganar as pessoas para se desviar do caminho da verdade e sucumbir as suas vontades. É o que chamam de “o rei vermelho”. Ele fará de tudo para conseguir o lugar dos cinco guardiões e modificar esse mundo de acordo com suas vontades mais sombrias...
De repente, Orion olha para trás, como se algo estivesse lhe incomodando.
-O que houve? O que você está vendo?
-Você não ouviu esse barulho?
-Que barulho, Orion? Não ouvi nada. Do que está falando?
Orion sacou a sua imensa espada e fixou o seu olhar em direção a uma rua movimentada. Todas as pessoas ao redor se afastaram com medo de que ele pudesse fazer algum mal a elas.
-O que deu em você? Está assustando as pessoas! –disse Polaris tentando fazer o rapaz baixar a arma.
-É melhor você se esconder. Você não vai querer vê-lo novamente.
-Ver quem? Está louco, Orion?
Rigel interrompeu o pronunciamento, pegou o microfone das mãos de Hatsya e gritou:
-Acalmem-se todos! Não se aflijam! Orion, baixe essa espada
-Eu sabia que não podíamos confiar nesse ex-membro da Servo. –disse o reverendo.
-Também não confio. Mas, espere um pouco. O que é aquilo vindo na rua?
Os dois se assustaram ao ver um demônio gigante semelhante ao que atacou Polaris no dia anterior vindo atrás de um homem que corria desesperadamente.
-Socorro! Alguém me ajuda! –gritava ele.
-Oh não! Um demônio novamente? –disse Polaris.
-Eu já falei para você se esconder. O que está esperando?
-Sim, Orion. Vou ajudar a proteger o reverendo.
O homem que estava correndo caiu. Ele tinha duas pistolas especiais, uma em cada mão e começou a atirar sem parar, fazendo o demônio cair também. O homem levantou-se e deu mais um tiro na região do peito do monstro, para certificar-se que ele estaria morto
-Quase eu viro picadinho por causa desse demônio! Foi por pouco! –disse ele enxugando a testa com uma das mãos, olhando para Orion que ainda estava empunhando a espada.
-Quem é você e como chegou até aqui? –perguntou Orion.
-Ei, pera ai! É assim que recebem o maior e mais famoso caçador de demônios de todos os tempos? Que pergunta, mano! Eu sou Altair, da Cidade do Oeste!
-Nunca ouvi falar de você.
-Você é tão desagradável! –disse ele, encabulado.
Altair era um homem jovem, alto, com um sobretudo preto. Tinha um cavanhaque, cabelos castanhos espetados e uma trança enorme atrás da cabeça onde na ponta havia um pedaço de metal afiado.
Orion vinha correndo e apontando a arma em sua direção, mas logo ele gritou:
-Abaixe-se!
Altair obedeceu e Orion pulou sobre ele, desferindo um golpe no demônio que estava atrás dele, pronto para atacá-lo novamente. O monstro foi ferido, mas mesmo assim começou a investir em cima de Orion. Altair atirava no demônio, sendo que alguns tiros pegavam na perna do monstro, para tentar imobiliza-lo. Mas o monstro era veloz e saltava rapidamente também. Orion foi ferido por um ataque do monstro e caiu. Altair correu atrás dele, saltou e começou a disparar novamente. O demônio tentava fugir em vão dos tiros, sendo ferido a cada segundo. Logo escolheu sua próxima presa para atacar: o Reverendo Hatsya, que estava sendo conduzido para dentro do templo, quando caiu em um degrau das escadarias.
Quando o demônio estava praticamente com as garras em cima do sumo sacerdote, Altair conseguiu imobilizar uma perna dele com seus tiros. Ao virar para trás, Orion apareceu num salto e cortou a cabeça do demônio. Agora sim ele tinha sido derrotado de vez. Ao se aproximar do monstro, notou que ele tinha o mesmo símbolo que lembrava a mascara do homem que matou seu pai.
Mas alguma coisa estava errada para Altair. O demônio tinha sido derrotado, mas ele apontou uma de suas pistolas em direção a Orion, que rapidamente viu o seu gesto, mas não reagiu.
Ao tentar disparar, pareceu ter sido empurrado por alguém, porém, ninguém que estava presente via o que havia atrás dele.
-Por que você fez isso? Você me interrompeu! –disse Altair olhando para o lado.
-Seu idiota! Você não pode atirar contra ele! –disse uma voz grave masculina.
-Por que não? Ele é do mal! Vocês não estão vendo? Pois eu vejo!
-Cale a boca! Eles não podem ver nada! Não repita isso, pois vão pensar que está
louco!
-Ei eu vejo! –disse um velho senhor no meio da multidão
-A-há! Ele vê! Viu só, ninguém vai me achar louco aqui!
-Bom, pela cara das pessoas, parece que elas não têm muita confiança nele... –disse a voz que só Altair ouvia.
O velho se aproximou em sua cadeira de rodas motorizada.
-Eu vejo! E também vejo a girafa atrás de você!
Altair olhou para o nada. Nenhuma das pessoas da festa estava entendendo o que realmente acontecia ali.
-Ela é igual à estampa da minha camiseta, olha! - o velho levantou a camiseta com tanta empolgação que quase caiu pra trás, e realmente havia uma girafa estampada ali - eu adoro a girafa! Ela me diverte de vez em quando... O quê? - ele olhou pra trás como se tivesse conversando com alguém - ah sim! Meu flamingo disse pra você ficar calado... Você ainda vai acabar gostando do meu amigo ali... - ele olhou para Orion e gritou: - Olá amigo do meu cogumelo!
Orion meio sem jeito respondeu o cumprimento.
-Bom, essa festa está divertida, mas os grilos estão me esperando na jangada do lago, preciso ir... Ah! Agora você também é meu amigo, tá certo? E aquela menina é amiga da minha girafa –disse ele se referindo a Polaris, apontando para a sua camiseta –Ela é legal!
-Não to sacando. Sou seu... amigo agora?
-Sim! É sim! Até mais amigos... e ah! Só mais uma coisa - ele virou para Orion e gritou –O cogumelo disse que você deveria conversar mais com meu novo amigo aqui! Até mais pessoal!
Empurrou o acelerador da cadeira de rodas pra frente e um botão do outro braço da cadeira, o que fez ele andar minimamente mais rápido.
-Uhu, adrenalina total!
Altair ficou observando o velho ir embora sem entender nada.
As pessoas olhavam para o caçador sem entender nada, pois parecia que ele estava falando sozinho. Ninguém conseguia ver ou ouvir com quem Altair estava discutindo.
Orion aproximou-se e começou a encará-lo. Altair sacou a pistola novamente e mirou-a na testa dele. Rapidamente Polaris chegou a tempo de interceder. Rigel veio logo atrás tentando protege-la.
-Pare, Altair! Orion não é nosso inimigo! –gritou ela em frente à Orion com os braços estendidos.
Altair suava frio, e a mão que segurava a arma começou a tremer.
-Eu não preciso que você me proteja. Posso muito bem dar conta dele sozinho.
-Não, Orion! Eu não irei sair da sua frente até que ele abaixe essa arma.
Finalmente, percebendo que de nada iria adiantar ele tentar atirar em Orion, Altair guardou sua arma. Nas escadarias do templo estava Hatsya sendo levantado pelos sacerdotes. Ele presenciou toda a cena e disse ofegante ao microfone que estava sendo segurado por um de seus ajudantes:
-Altair, Polaris e Orion. Quero ver vocês no salão do trono imediatamente!
Rigel chamou alguns sacerdotes para limpar a sujeira deixada por causa da batalha e, ao pegar o microfone do reverendo disse:
-Meus queridos membros da Asha. Infelizmente teremos que encerrar a festa desse ano. Que os cinco guardiões abençoem vocês pelo seu caminho de volta para casa. Até logo!
E as pessoas que ainda estavam lá começaram aos poucos a ir embora assustadas e inconformadas com aquele acontecimento.
-O que será que o reverendo quer falar conosco? –perguntou Polaris a Altair.
-Não sei. Ele é o chefão né? Temos que obedecer o cara!
-Eu só estou perdendo tempo aqui... –disse Orion, lamentando-se.
Altair o encarou mais uma vez, mas rapidamente entrou no templo junto a ele e a Polaris, encaminhando-se para o salão do reverendo. Ele estava se recuperando do susto. Como já era idoso, tinha uma saúde um pouco frágil, portanto tinham que ter cuidados especiais com ele.
-Entrem meus queridos...
-Fala aí, chefe! O que você manda? Porque me chamou até aqui?
-Isso é maneira de você se dirigir ao sumo sacerdote da Asha? –disse um ajudante de Hatsya, condenando sua má educação perante o reverendo.
-Tem razão. Ele é o supra sumo. Devemos respeitá-lo.
O velho passou rapidamente pela porta do salão.
- Supra sumo! Eu gosto de Supra sumo!
Todos olharam mas depois voltaram a atenção para Hatsya.
-Esqueça as formalidades e vamos logo ao assunto, pois visto que a situação está se agravando, nós não podemos perder mais tempo. Altair, eu o chamei aqui para você conhecer Polaris e guia-la pelas cinco cidades, onde ela deverá visitar os cinco templos antigos. Você deverá protegê-la dos perigos que talvez possam encontrar na sua jornada.
-Tudo bem, eu protejo a menina de qualquer coisa, chefe! Pode contar comigo!
-Polaris, obedeça Altair e preste atenção a tudo o que os sacerdotes lhe disserem sobre os templos e os guardiões.
-Sim, Reverendo Hatsya. Eu tentarei aproveitar ao máximo essa viagem. –disse Polaris olhando para trás. –Mas, e quanto ao Orion? Por que o chamou até aqui também?
Orion estava encostado em uma parede, de braços cruzados e olhando para o chão. Parecia não estar prestando atenção na conversa deles.
-Rapaz, tendo visto a sua coragem ao derrotar o demônio e como agradecimento por ter salvo a minha vida. Você tem minha confiança agora e por isso, pode viajar junto com eles. Você é forte. Sei que irá ser um grande reforço para proteger Polaris.
Orion descruzou os braços e andando em direção do sumo sacerdote disse:
-Por que eu deveria ir? Meu caminho nada tem a ver com o de Polaris.
-Mas que cara folgado! Preste atenção ao que você fala, moleque!
-Eu preciso ir embora. Adeus.
-Orion, não se vá, por favor! –disse Polaris –venha comigo!
Altair aproximou-se de Orion e apontando o dedo para o rosto dele disse:
-Aí mano. Você é folgado, mas é forte pra cacete. Custa ajudar um pouco? Você virá com a gente, nem que eu tenha que te levar amarrado!
-Me dê um bom motivo para ir então.
-Se você me guiar pelas cidades, nós arrumamos um jeito de te pagar. Sei que você precisa de dinheiro. Então venha com a gente! –disse Polaris.
-Se esse for o problema, você terá o pagamento que merecer, após a conclusão da viagem de Polaris –confirmou Hatsya.
Orion pensou bem, olhando para o chão e logo perguntou:
-Qual cidade nós iremos primeiro?
-Mas é um interesseiro mesmo esse branquelo azedo! Só falar de dinheiro que o moleque até casa com a gatinha!
Após ter dito essas palavras, ele recebeu um tapa na cabeça.
-Ai! Você de novo! Deixe-me em paz seu idiota!
-Com quem você está falando, Altair? –perguntou Polaris.
-Com ninguém. Vocês não podem vê-lo mesmo, de que adianta eu falar.
-É, pelo visto terei que ir mesmo te acompanhar. Se depender desse louco você estará em perigo. –Disse Orion a Polaris, caçoando de Altair.
-Quem aqui é louco?
- Eu é que não sou! A minha girafa deve ser... Ela não gosta de açúcar.
-Parem com as brigas vocês dois! –interrompeu Hatsya -Agora peço que se retirem e façam as devidas preparações para a sua viagem. Vocês deverão ir para a Cidade do Sudoeste. Vocês serão recebidos pelo sacerdote Mintaka, que lhes ensinarão o que precisam saber para o resto da viagem.
-Mintaka... eu já ouvi esse nome antes. –murmurou Orion.
-Mintaka alguma coisa que eu te bato! - passou o velho novamente pela porta parecendo que estava brigando com alguém.
-Sim, reverendo. Assim o faremos. –disse Polaris.
Altair e Orion se encaravam a cada minuto. Alguma coisa em Orion chamava a atenção do caçador e o incomodava muito, mas ele não podia dizer uma só palavra, pois ao contrario dele, ninguém podia ver nada.
E assim começava a jornada dos três pelas cinco cidades, onde muitos perigos os esperavam.

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